Sou apenas um médico que trabalha bastante para sobreviver. Nunca me achei melhor do que ninguém, mas também jamais aceitei a ideia de ser pior. Carrego comigo uma tranquilidade estranha: não existe dentro de mim qualquer sentimento de superioridade ou inferioridade. Talvez por isso eu observe tanto o comportamento humano. Quem se sente superior costuma gritar demais. Quem se sente inferior normalmente se ajoelha cedo demais. Nunca gostei nem de gritar, nem de ajoelhar.
O que existe em mim é inquietação.
Tudo passa rápido pela minha cabeça. Muito rápido. Hoje assisto um político falando e, por alguns instantes, penso: “Talvez seja isso… talvez esse homem tenha entendido alguma coisa.” Bastam alguns minutos a mais e começo a perceber rachaduras no discurso, vaidades escondidas, frases decoradas, inconsistências, contradições e aquele velho vício humano do “eu” acima de tudo.
Pronto.
O encanto morre.
Aquilo que parecia genial torna-se banal. O que parecia solução vira fumaça. E então começa a velha pergunta silenciosa dentro da minha cabeça:
“Por que não pensas assim?”
“Ontem defendias isso… hoje defendes aquilo… amanhã defenderás o quê?”
Talvez o problema não esteja apenas nos outros. Talvez minha mente seja inquieta demais para aceitar certezas prontas. Talvez eu tenha convivido tempo demais com a fragilidade humana para acreditar em salvadores da pátria.
A Copa do Mundo está chegando e estou absolutamente nem aí. Não conheço jogadores, não sei escalações, não acompanho tabelas e, sinceramente, não sinto falta alguma disso. Já gostei mais dessas competições, mas hoje me parecem um grande resumo da humanidade: milhões brigando emocionalmente por algo que não mudará absolutamente nada em suas vidas na manhã seguinte.
Resolvi então aderir ao frescobol.
E antes que algum progressista de plantão tenha um surto semântico e me acuse de “frescófobo”, explico logo: não é por causa do nome.
É pela filosofia.
Até hoje ninguém inventou regras sérias para o frescobol. Não existe juiz, VAR, impedimento, cartão vermelho, torcida organizada, coletiva de imprensa, derrota humilhante ou vencedor arrogante levantando taça.
No frescobol ninguém joga contra.
Joga junto.
O objetivo não é destruir o adversário.
É manter a bola no ar.
Olha que coisa revolucionária:
dois indivíduos tentando ajudar um ao outro sem necessidade de competição.
Talvez seja exatamente isso que me agrade.
Cansei dessa necessidade humana de transformar tudo em campeonato. Hoje disputam política, moral, virtude, sofrimento, inteligência, pobreza, riqueza, beleza e até desgraça. Tudo virou competição. Tudo virou palco. Tudo virou torcida.
Por isso decidi uma coisa:
minha vida não passará pela necessidade de vencer ninguém.
Aos amigos que caminham perto de mim, digo apenas:
ninguém perde e ninguém ganha.
Cada um carrega suas dores, suas contradições, seus fracassos escondidos e suas pequenas vitórias silenciosas. Eu sou apenas alguém tentando atravessar a vida sem precisar pisar em ninguém para existir.
Sou o que sou.
E boi não lambe.
Erre Emendar


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