Existe algo profundamente curioso no ser humano: o sujeito passa metade da vida fingindo humildade, até que um microfone, um cargo ou uma caneta lhe caiam nas mãos. A partir daí, desperta nele uma entidade mística, quase divina, uma mistura de pavão com faraó egípcio, olhando para os mortais e pensando:
— “Agora chegou minha vez…”
E chega mesmo.
Chega a vez do carro blindado, da verba secreta, do gabinete climatizado, dos assessores que carregam até a pasta de dente do iluminado. O homem que ontem tomava café em copo descartável hoje fala em “arcabouço institucional”, “governabilidade” e “diálogo republicano”, expressões elegantes que normalmente significam:
— “Quanto vai entrar pra eu votar nisso?”
Freud explicava o ego.
Mas o Brasil resolveu inovar:
aqui criamos o ego com auxílio-moradia.
O super ego político brasileiro é um fenôeno extraordinário. O cidadão acorda deputado e vai dormir semideus. Em poucas semanas desenvolve sintomas clássicos:
- perde a memória eleitoral,
- adquire alergia ao povo,
- engorda o patrimônio,
- e começa a falar difícil para parecer profundo.
Eis então que surgem as três correntes políticas nacionais.
Os progressistas.
Estão no poder há tanto tempo que já confundem governo com mobília pública. Tornaram-se patrimônio histórico tombado. Prometeram igualdade, justiça social, desenvolvimento, consciência coletiva e o escambau filosófico inteiro. Meio século depois, o brasileiro continua escolhendo entre pagar imposto ou comprar carne. A única coisa que evoluiu de fato foi a criatividade tributária do Estado. O pobre hoje não compra uma blusa sem financiar três ministérios e dois seminários sobre linguagem neutra.
Depois vêm os fisiologistas.
Ah… os fisiologistas…
Esses não têm ideologia.
Têm olfato.
São como urubus de terno italiano sobrevoando qualquer governo. Não importa se é esquerda, direita, centro ou Marte: havendo orçamento, eles pousam. São os arquitetos do conchavo, os mestres da musculatura política expressão bonita que significa apenas:
“especialista em sobreviver mamando no Estado.”
O fisiologista é uma criatura adaptável.
Se amanhã um poste vencer eleição, ele aparece abraçado ao poste dizendo:
— “Sempre acreditei na luminosidade democrática.”
Eles falam em estabilidade institucional enquanto negociam cargos como camelô negocia capa de celular.
Vendiam a mãe…
Hoje terceirizaram:
vendem o país inteiro em suaves prestações parlamentares.
E por fim os conservadores.
Aqui muitos se irritam.
Mas irritação virou esporte nacional.
Gostem ou não, milhões de brasileiros enxergaram no conservadorismo algo que há muito não viam:
identificação.
Não perfeição.
Não santidade.
Identificação.
Bolsonaro surgiu quase como um acidente histórico num país acostumado ao teatro fisiológico. Falava errado, brigava, explodia, tropeçava nas palavras mas justamente por isso parecia humano num ambiente dominado por atores profissionais da hipocrisia.
Durante a pandemia, enquanto muitos governadores transformavam o caos em licitação permanente e alguns iluminados descobriam que emergência sanitária podia render milagres financeiros, boa parte do povo viu naquele governo alguém tentando impedir que os abutres levassem até os cadáveres.
Durou quatro anos.
E bastaram quatro anos para o sistema inteiro ranger como porta velha de casarão abandonado.
Hoje o Brasil parece um ônibus descendo a ladeira sem freio.
E o mais assustador:
há gente dentro cantando que está tudo bem.
A economia sufoca.
A liberdade encolhe.
O medo cresce.
E os fisiologistas seguem felizes, obesos de verbas, sorrindo como hienas diante do erário aberto.
Enquanto isso o povo…
ah o povo…
continua pagando imposto, gasolina, comida, juros, silêncio e humilhação.
E quando alguém ousa reclamar, logo aparece um sábio institucional dizendo:
— “A democracia está funcionando.”
Está.
Para eles.
Porque para o cidadão comum, a sensação é de estar amarrado no trilho enquanto a locomotiva estatal vem vindo lentamente… e ainda cobram pedágio pela atropelada.
Que Deus nos ajude.
Porque Brasília claramente já desistiu disso faz tempo.
Erre Eme

