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Tag: Pensamento

  • Que significa Direita?

    Confesso que ando profundamente cansado dessas terminologias políticas modernas. Direita, esquerda, extrema-direita, extrema-esquerda… sinceramente? Parece mais nome de ala psiquiátrica de hospital desorganizado do que definição séria de pensamento humano.

    A política brasileira transformou-se numa fábrica de rótulos. Se alguém defende família, religião, trabalho e responsabilidade individual, imediatamente recebe um carimbo na testa. Se outro pensa diferente, também é encaixotado numa prateleira ideológica qualquer. E pronto. O debate acabou. Pensar virou crime de classificação.

    O mais engraçado — ou trágico — são as metáforas cuidadosamente fabricadas pelos comentaristas profissionais do caos:
    — “Fulano não tem musculatura política.”
    — “Falta diálogo.”
    — “O Supremo não era assim.”
    — “A direita está rachada.”
    Meu Deus… parece até comentário de fisioterapeuta institucional analisando um paciente em estado terminal.

    Vou dizer com toda sinceridade: não me considero homem de direita nem de esquerda. Considero-me um homem conservador. E há diferença enorme nisso.

    Fui criado por pais que me ensinaram algo hoje quase clandestino: honra. Aprendi desde cedo que inveja destrói, rancor adoece e que, quando precisamos de alguma coisa, devemos trabalhar honestamente para conseguir. Não cresci ouvindo que o mundo me devia algo. Cresci ouvindo:
    — “Levanta cedo.”
    — “Respeita os outros.”
    — “Não pega o que não é teu.”
    — “A palavra de um homem vale mais que assinatura.”

    Isso não me torna superior a ninguém. Apenas me torna produto da educação que recebi.

    Da mesma forma, respeito quem pensa diferente de mim. O progressista verdadeiro possui suas crenças, seus ideais sociais, sua visão de mundo. E está no direito dele defendê-los. Democracia não significa uniformidade cerebral. Pelo contrário: significa convivência entre divergentes.

    O problema começa quando o sujeito deixa de defender ideias e passa a defender apenas poder.

    Aí nasce uma criatura perigosíssima: o fisiologista travestido de conservador, de progressista, de patriota, de revolucionário ou do que estiver rendendo voto no momento.

    Esse não possui ideologia.
    Possui fome.

    Fome de cargo.
    Fome de dinheiro.
    Fome de influência.
    Fome de aplauso.
    Fome de controle.

    Hoje muitos não querem governar.
    Querem dominar.

    E para isso vale tudo:
    calúnia,
    medo,
    censura,
    perseguição,
    narrativas artificiais,
    moral seletiva,
    e principalmente a destruição calculada do adversário.

    Liga-se a televisão e surgem as manchetes:
    — “Guerra na direita.”
    Não. Isso não existe.

    O que existe é oportunismo brigando pelo espelho.
    Vaidade disputando holofote.
    Fisiologismo vestido com camisa conservadora.

    Porque conservadorismo não é gritar palavras de ordem.
    Não é fotografia segurando Bíblia.
    Não é patriotismo performático de rede social.

    Conservadorismo verdadeiro talvez seja algo muito mais simples e muito mais difícil:
    trabalhar,
    respeitar,
    não roubar,
    não perseguir,
    não odiar quem pensa diferente,
    e principalmente não destruir instituições apenas porque elas deixaram de servir aos próprios interesses.

    Infelizmente chegamos ao tempo em que muitos falam em democracia enquanto sonham silenciosamente com obediência absoluta.

    E talvez seja exatamente isso que mais assuste:
    não é mais a existência da esquerda ou da direita.

    É a extinção gradual da coerência.

    Erre Eme

  • A Taxa das Blusinhas

    Quando penso que já chegamos ao fundo do poço, eis que aparece alguém, com pá, picareta e sorriso de estadista, disposto a cavar mais um pouco.

    A política nasceu de uma necessidade simples: organizar a vida em comum. Quando meia dúzia de pessoas resolveu viver no mesmo espaço, logo alguém percebeu que, sem regras, aquilo não duraria. Primeiro viriam os ciúmes, depois as vantagens, em seguida as mentiras, os crimes, as pequenas espertezas — e, quando se visse, o povoado estaria reduzido a pó, briga e ressentimento.

    Então alguém, com mais de dois neurônios funcionando em honesta sinapse, deve ter dito:

    — Precisamos escolher os melhores entre nós. Os mais experientes, os mais honestos, os mais equilibrados. Eles cuidarão das necessidades coletivas.

    E assim nasceu o Estado.

    Mas o Estado não nasceu para ser dono do povo. Nasceu para servi-lo. Foi criado, remunerado e mantido por aqueles que trabalham, produzem, pagam impostos e sustentam a máquina. O povo não é súdito. O povo é patrão.

    Todo poder de colocar alguém lá — e de tirá-lo de lá — emana do povo.

    A ideia era simples: a comunidade contribuiria com parte do que produzisse, e esse recurso retornaria em forma de saúde, educação, segurança, saneamento, infraestrutura e dignidade. Era para ser um pacto civilizatório. Mas, como quase tudo que passa pelas mãos humanas sem vigilância, a ideia foi apodrecendo.

    Os antigos escolhidos desapareceram. Vieram os gananciosos, os mentirosos, os oportunistas, os vendedores de ilusão. Vieram aqueles que descobriram que o povo, se mal educado politicamente, poderia ser comprado barato: uma camisa aqui, cem reais ali, dez telhas acolá, uma promessa qualquer embrulhada em sorriso falso.

    E então ocorreu a grande tragédia: o povo passou a ter ojeriza à política. Deixou de discutir, estudar, fiscalizar. Achou que política era assunto sujo demais para gente decente. E, justamente por isso, entregou o terreno inteiro aos sujos.

    Sem controle, o Estado se esqueceu de sua função. Passou a acreditar que o povo existia para servi-lo. Criou impostos, taxas, penduricalhos, privilégios, discursos, narrativas e desculpas. Arrancou dinheiro de quem trabalha, sufocou pequenos negócios, apertou aposentados, empurrou famílias para dívidas impagáveis e ainda teve a coragem de chamar isso de justiça social.

    Aí surge a tal Taxa das Blusinhas.

    O nome parece pequeno, quase infantil. Mas por trás dele mora o velho vício nacional: meter a mão no bolso do pobre e dizer que é pelo bem dele.

    Durante anos, criam impostos, aumentam custos, dificultam a vida de quem compra barato porque não pode comprar caro. Depois, na véspera das eleições, aparecem com cara de salvadores da pátria, dizendo que vão corrigir o problema que eles mesmos ajudaram a criar.

    É a velha técnica: acuse-os do que você faz.

    Criam o incêndio, vendem o balde d’água e ainda posam para fotografia como bombeiros da República.

    A Taxa das Blusinhas não é apenas uma taxa. É símbolo. É o retrato de um Estado que perdeu a vergonha. Um Estado que tributa o mínimo prazer do cidadão comum, enquanto preserva os privilégios dos que vivem no andar de cima da máquina.

    O povo compra uma blusinha barata porque o salário é curto, a vida é cara e o dinheiro não estica. Mas, para os iluminados de Brasília, até isso parece afronta. Até a pequena alegria da compra modesta precisa ser alcançada pela garra arrecadatória.

    No fim, a pergunta é simples: até quando?

    Até quando o povo aceitará ser tratado como fonte inesgotável de dinheiro? Até quando chamaremos de normal essa inversão perversa, em que o Estado manda e o povo obedece?

    A política nasceu para organizar a vida coletiva. Mas, sem fiscalização, sem indignação e sem memória, ela vira feira de vaidades, balcão de negócios e fábrica de impostos.

    E quando um povo esquece que é patrão, não demora para ser tratado como servo.

    Erre Eme

  • A Orquídea Negra

    Existem mortes que acontecem diante de todos…
    e ainda assim permanecem invisíveis.

    Existem rostos que o tempo esquece, arquivos que desaparecem, nomes apagados com a delicadeza burocrática de quem limpa poeira sobre móveis antigos. Mas há algo que jamais desaparece completamente: o rastro.

    Às vezes ele surge na forma de um detalhe microscópico.
    Uma lesão impossível.
    Um padrão repetido.
    Um perfume doce demais para existir perto da morte.

    Foi assim que tudo começou.

    Não com tiros.
    Não com perseguições.
    Não com heróis.

    Mas com a inquietação silenciosa de homens que ousaram perceber aquilo que deveriam ignorar.

    Nas profundezas frias de laboratórios, necrotérios e corredores institucionais onde o silêncio vale mais do que a verdade, nasceu uma pergunta proibida:
    por que certas mortes pareciam assinadas?

    E toda assinatura possui um autor.

    A Orquídea Negra não é apenas uma mulher.
    Não é apenas um codinome.
    É um símbolo.
    Uma sombra elegante que atravessa os bastidores do poder deixando para trás um aroma inesquecível e uma sucessão de cadáveres que jamais deveriam ter sido ligados entre si.

    Enquanto políticos discursam, juízes interpretam, jornalistas distraem e multidões seguem suas vidas acreditando na normalidade do mundo, uma engrenagem silenciosa continua funcionando por trás das cortinas.

    A Estrutura.

    Antiga.
    Paciente.
    Quase invisível.

    E quando alguém se aproxima demais da verdade… desaparece.

    Mas toda máquina possui falhas.

    E toda organização construída sobre o medo teme uma única coisa:
    aqueles que já perderam o medo.

    Entre arquivos ocultos, laboratórios esquecidos, museus silenciosos e corredores onde o passado ainda respira, surge uma história onde ciência, conspiração, política, morte e consciência humana se misturam de forma irreversível.

    Talvez esta seja apenas uma obra de ficção.

    Talvez não.

    O leitor decidirá.

    Só existe uma recomendação antes de prosseguir:

    Se em algum momento sentir um perfume doce e inexplicável enquanto lê estas páginas…
    pare imediatamente.

    Porque talvez ela esteja próxima demais.

    A Orquídea Negra.