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Tag: Sociedade

  • Facção ou Terrorismo?

    Confesso que ando perplexo.

    Não pela existência do crime organizado. Esse sempre existiu. Mudam os nomes, mudam as siglas, mudam os chefes, mas o crime acompanha a humanidade desde que Caim resolveu inaugurar a primeira ocorrência policial da história.

    O que me deixa perplexo é outra coisa.

    Leio notícias, assisto entrevistas, acompanho debates e descubro que existem pessoas preocupadíssimas com a possibilidade de determinadas facções criminosas serem tratadas como organizações terroristas em outros países. Não estão preocupadas com os assassinatos, com o tráfico, com a lavagem de dinheiro, com a destruição de famílias ou com a corrupção que acompanha essas estruturas. Não. A preocupação parece ser com os possíveis efeitos econômicos do combate a elas.

    Aí confesso que minha cabeça começa a fumegar.

    Como assim?

    Se o combate ao crime ameaça o sistema financeiro, a pergunta que surge naturalmente não é sobre o combate ao crime.

    É sobre o sistema financeiro.

    Porque o raciocínio é simples até para um velho patologista acostumado a procurar a origem das doenças: quando o bisturi encontra um tumor e alguém grita para não cortar porque isso pode prejudicar o organismo, a primeira dúvida é saber o tamanho do tumor.

    Ou estou raciocinando errado?

    Talvez.

    Hoje em dia até pensar parece atividade de risco.

    Aliás, vamos apenas pensar.

    Quem foi o presidente que certa vez resumiu a questão da criminalidade dizendo que quem não mata, não rouba e não estupra não deveria temer a prisão porra!

    Onde está esse presidente?

    Quem foi o general que comandou uma intervenção federal no Rio de Janeiro enfrentando organizações criminosas?

    Onde está esse general?

    Quem foi o ex-ministro da Justiça que se destacou pelo discurso duro contra o crime organizado?

    Onde está esse ex-ministro?

    Quem foi o dirigente policial associado a grandes apreensões de drogas?

    Onde está esse dirigente?

    Não estou emitindo juízo jurídico sobre ninguém.

    Estou apenas observando.

    E observando muito.

    Porque o cidadão comum começa a desenvolver uma estranha sensação de que existe algo fora do lugar. Como quando você entra em casa e percebe que o sofá está na cozinha, a geladeira no banheiro e o cachorro dormindo dentro do armário.

    Talvez exista uma explicação perfeita para tudo.

    Talvez.

    Mas o povo olha, coça a cabeça e pergunta:

    — Estou ficando louco ou a realidade resolveu beber?

    Enquanto isso, muitos preferem a estratégia nacional mais antiga e mais eficiente para a preservação da tranquilidade emocional:

    Enfiar a cabeça no buraco.

    “Não é comigo.”

    “Nunca vi.”

    “Não sei de nada.”

    “Deixa pra lá.”

    É uma técnica interessante.

    O problema é que a cabeça fica protegida, mas o restante do corpo continua exposto.

    E a História, essa senhora cruel e sem qualquer senso de humor, costuma cobrar juros altíssimos dos que decidiram não prestar atenção.

    Por isso continuo pensando.

    Com cautela.

    Com muito cuidado.

    Talvez até olhando para os lados antes de concluir uma frase.

    Porque no Bananil moderno, às vezes tenho a impressão de que o problema não é o crime.

    O problema é quem ousa notar que ele existe.

    E isso, meus amigos, foi apenas um pensamento.

    Apenas um pensamento.

    Erre Eme

  • Feliz Dia das Mães

    Hoje escrevo não apenas uma homenagem para minha querida Ignez, mas para todas as mães do mundo, por um motivo muito simples: toda mãe, ao seu modo e dentro das suas possibilidades, ultrapassa em muito os limites das próprias forças.

    O trabalho de mãe exige especialização em tudo.

    Na medicina, é pediatra de mãos cheias.
    Na arrumação da casa, uma admirável arquiteta.
    No orçamento familiar, economista de primeira linha.
    Na cozinha, uma verdadeira mestra das delícias culinárias.
    Na dor dos filhos, psicóloga.
    Na tristeza da família, abrigo.
    No medo, coragem.
    Na queda, colo.

    Jamais poderemos esquecer nossa origem.

    Mãe é mãe.
    Não importa se nasceu na China, em Cuba, no Chile ou no Brasil.
    Todas carregam dentro de si o milagre silencioso da renúncia, da proteção e do amor absoluto.

    A única tristeza é perceber que mães têm prazo de validade.
    Que pena…
    Mãe devia ser eterna.

    Feliz Dia das Mães!

    Erre Eme

  • A Guerra

    A guerra talvez seja a mais antiga e vergonhosa prova de que a inteligência humana nem sempre caminha ao lado da sabedoria.

    Uma espécie capaz de alcançar as estrelas, dividir o átomo, manipular a genética e sondar os mistérios do universo permanece, paradoxalmente, incapaz de abandonar seu mais primitivo instinto: destruir a si mesma.

    Sob o pesado manto da ganância, da corrupção e da sede insaciável de poder, continuam os homens a mover peças em tabuleiros de sangue como se vidas humanas fossem meros números de estatística.

    Decidem conflitos em salas refrigeradas, sobre mesas de madeira nobre, enquanto crianças morrem soterradas sob concreto, mães choram sobre escombros fumegantes, e inocentes pagam, com a própria carne, a conta da vaidade de governantes que jamais sentirão o cheiro da pólvora no front.

    Quanto mais evolui a tecnologia, mais se aperfeiçoa a barbárie.
    Se outrora se matava com espada e mosquete, hoje se pulveriza com drones, mísseis guiados, bombas inteligentes — ironicamente chamadas assim, quando nada há de inteligente em ceifar vidas humanas aos milhares.

    E os que ordenam os disparos, protegidos por quilômetros de distância e muralhas diplomáticas, tornam-se cada vez mais embriagados por uma sensação quase divina de poder.
    Falam em “danos colaterais” como quem comenta números frios de mercado, transformando mutilações humanas em linguagem burocrática, como se amputações, órfãos e cadáveres fossem apenas efeitos secundários inevitáveis de um cálculo estratégico.

    Há, nesses homens, um delírio crescente — quase patológico — de onipotência.
    Sentem-se inalcançáveis.
    Intocáveis.
    Como se a distância entre sua caneta e o campo de batalha os absolvesse moralmente da carnificina que autorizam.

    Mas eis a grande ironia da guerra moderna:
    na próxima grande conflagração mundial, talvez não exista bunker suficientemente profundo, muralha suficientemente espessa ou subterrâneo suficientemente oculto que garanta proteção real.
    A tecnologia tornou o mundo pequeno demais para esconder covardes.

    Talvez o único lugar verdadeiramente seguro fosse justamente o centro das decisões militares — mas este, ironicamente, será sempre o primeiro alvo.
    Porque quem semeia destruição costuma esquecer que o fogo, uma vez espalhado, raramente respeita a direção do vento.

    Por isso, talvez fosse mais digno, mais lógico e infinitamente mais honesto, que os próprios mandatários que decretam guerras resolvessem entre si suas disputas.
    Que vestissem suas fardas, empunhassem suas armas, e marchassem pessoalmente para os campos de batalha que tanto defendem da segurança de seus púlpitos.

    Ali, frente a frente, sem exércitos, sem inocentes, sem bandeiras atrás das quais esconderem suas ambições, talvez descobrissem rapidamente a verdade mais simples e antiga da humanidade:

    Quando um não quer, dois não brigam.

    E talvez bastasse ao primeiro sentir o peso real da morte diante dos próprios olhos para que toda sua valentia evaporasse como fumaça ao vento.

    Porque é fácil desejar guerra quando quem morre é o filho do outro.
    Difícil é manter o discurso inflamado quando o sangue derramado pode ser o próprio.

    No fundo, toda guerra nasce do mesmo ventre:
    o orgulho desmedido de poucos e o sofrimento inevitável de muitos.

    E enquanto a humanidade continuar permitindo que homens vaidosos decidam destinos alheios sem jamais provarem o gosto amargo de suas próprias decisões, seguiremos chamando de civilização aquilo que, muitas vezes, não passa de barbárie bem vestida.

    Erre Eme

  • O homem-mulher

    Vivemos tempos curiosos. Não apenas estranhos, mas curiosos no sentido quase clínico da palavra: dignos de observação, anotação e quem sabe, diagnóstico.

    A mulher, que outrora lutou para ser ouvida, hoje parece paradoxalmente, correr o risco de ser substituída no próprio palco onde deveria ser protagonista. Não por homens no sentido clássico — isso seria até banal — mas por uma versão reinterpretada, reciclada, adaptada… uma espécie de mulher conceitual, cuidadosamente moldada para caber melhor no discurso do que na realidade.

    E aqui começa o desconforto.

    Porque enquanto o discurso avança, o corpo não acompanha.

    O corpo continua tendo útero — ou não.
    Continua tendo ovários — ou não.
    Continua adoecendo — com uma fidelidade quase ofensiva à biologia.

    Mas a política… ah, a política não gosta de limites. Muito menos dos impostos pela natureza.

    Criaram então, algo admirável: uma comissão para tratar dos problemas da mulher. Nome bonito, intenção nobre, fotografia perfeita. Seria o espaço ideal para discutir o que realmente importa — prevenção de câncer, acesso a exames, diagnóstico precoce, saúde reprodutiva, dignidade no cuidado.

    Mas eis que, num movimento digno de nota, escolhe-se para liderar esse espaço alguém cuja relação com esses problemas é, no mínimo, teórica.

    E aqui não se trata de ataque pessoal — seria pequeno demais. Trata-se de lógica.

    Porque há uma diferença brutal entre defender uma causa e encarnar essa causa.

    Quem nunca teve ovário pode estudar ovário — mas não o teme.
    Quem nunca teve útero pode ler sobre útero — mas não o sente.
    Quem nunca amamentou pode discursar sobre amamentação – mas jamais compreenderá aquele momento em que o corpo decide, por conta própria, alimentar outro ser humano.

    E não, isso não é preconceito.

    Isso é realidade.

    Mas a realidade, ao que parece, anda fora de moda.

    Preferiu-se substituí-la por uma espécie de teatro conceitual, onde identidade vale mais que biologia, e vivência pode ser trocada por narrativa bem construída.

    E assim seguimos.

    Discutindo “lugar de fala” exceto quando ele incomoda.
    Defendendo inclusão exceto quando ela exige coerência.
    Falando de ciência enquanto convenientemente a ignoramos.

    O mais curioso, meu amigo, é que tudo isso vem embalado como progresso.

    Um progresso que, ironicamente, parece começar desmontando aquilo que levou milênios para ser construído: a própria noção de mulher enquanto realidade concreta.

    Transformaram-na em ideia.

    E ideias não engravidam.
    Ideias não adoecem.
    Ideias não precisam de ultrassom, de PCCU, de diagnóstico precoce.

    Ideias são perfeitas justamente porque não existem.

    Talvez seja esse o objetivo final: uma mulher que não sangra, não gesta, não envelhece, não adoece… uma mulher sem inconvenientes biológicos.

    Uma mulher… confortável.

    Enquanto isso, a mulher real — de carne, osso e história — continua lá fora, enfrentando filas, diagnósticos tardios, negligência disfarçada de discurso bonito.

    Mas fiquemos tranquilos.

    Ela agora está muito bem representada.

    Ao menos no papel.

    Erre Eme