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  • O Travessão (ou uma conversa com minha filha)

    — Pai, por que o senhor usa tanto travessão?

    A pergunta veio simples. Sem crítica. Sem ironia. Apenas curiosidade.

    Mas confesso — doeu um pouco.

    Não porque estivesse errada. Mas porque, às vezes, quando questionam nossa escrita, parece que questionam nossa maneira de pensar.

    Pensei em responder tecnicamente. Dizer que o travessão é recurso estilístico, que cria ênfase, que substitui vírgulas, que destaca termos explicativos.

    Mas a verdade é outra.

    Eu uso travessão porque gosto de marcar o que considero essencial.

    Quando escrevo
    “Meu pai — um grande médico — salvava vidas”,
    não estou apenas explicando quem ele era. Estou segurando o leitor pelo braço e dizendo: “preste atenção nisso”.

    O travessão é a minha maneira de iluminar o que não pode passar despercebido.

    Talvez eu o use porque a vida me ensinou que o essencial quase sempre fica escondido no meio da frase — e eu nunca gostei de deixar o essencial escondido.

    Ele cria pausa.
    Cria tensão.
    Cria respeito.

    Não é excesso.
    É intenção.

    Minha filha talvez veja pontuação.
    Eu vejo respiração.

    Vejo aquele pequeno silêncio antes da verdade.

    E, pensando bem, talvez o travessão diga algo sobre mim. Nunca fui homem de meias-palavras. Quando algo importa, eu separo. Destaco. Enfatizo.

    Não por soberba — mas por convicção.

    Se um dia eu parar de usar travessão, talvez seja porque aprendi a deixar certas coisas passarem despercebidas.

    Mas, por enquanto, não.

    Enquanto eu escrever — haverá pausas marcadas.
    Haverá ênfases assumidas.
    Haverá verdades destacadas.

    E haverá, inevitavelmente — travessões.

    Erre Eme