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A Taxa das Blusinhas

Quando penso que já chegamos ao fundo do poço, eis que aparece alguém, com pá, picareta e sorriso de estadista, disposto a cavar mais um pouco.

A política nasceu de uma necessidade simples: organizar a vida em comum. Quando meia dúzia de pessoas resolveu viver no mesmo espaço, logo alguém percebeu que, sem regras, aquilo não duraria. Primeiro viriam os ciúmes, depois as vantagens, em seguida as mentiras, os crimes, as pequenas espertezas — e, quando se visse, o povoado estaria reduzido a pó, briga e ressentimento.

Então alguém, com mais de dois neurônios funcionando em honesta sinapse, deve ter dito:

— Precisamos escolher os melhores entre nós. Os mais experientes, os mais honestos, os mais equilibrados. Eles cuidarão das necessidades coletivas.

E assim nasceu o Estado.

Mas o Estado não nasceu para ser dono do povo. Nasceu para servi-lo. Foi criado, remunerado e mantido por aqueles que trabalham, produzem, pagam impostos e sustentam a máquina. O povo não é súdito. O povo é patrão.

Todo poder de colocar alguém lá — e de tirá-lo de lá — emana do povo.

A ideia era simples: a comunidade contribuiria com parte do que produzisse, e esse recurso retornaria em forma de saúde, educação, segurança, saneamento, infraestrutura e dignidade. Era para ser um pacto civilizatório. Mas, como quase tudo que passa pelas mãos humanas sem vigilância, a ideia foi apodrecendo.

Os antigos escolhidos desapareceram. Vieram os gananciosos, os mentirosos, os oportunistas, os vendedores de ilusão. Vieram aqueles que descobriram que o povo, se mal educado politicamente, poderia ser comprado barato: uma camisa aqui, cem reais ali, dez telhas acolá, uma promessa qualquer embrulhada em sorriso falso.

E então ocorreu a grande tragédia: o povo passou a ter ojeriza à política. Deixou de discutir, estudar, fiscalizar. Achou que política era assunto sujo demais para gente decente. E, justamente por isso, entregou o terreno inteiro aos sujos.

Sem controle, o Estado se esqueceu de sua função. Passou a acreditar que o povo existia para servi-lo. Criou impostos, taxas, penduricalhos, privilégios, discursos, narrativas e desculpas. Arrancou dinheiro de quem trabalha, sufocou pequenos negócios, apertou aposentados, empurrou famílias para dívidas impagáveis e ainda teve a coragem de chamar isso de justiça social.

Aí surge a tal Taxa das Blusinhas.

O nome parece pequeno, quase infantil. Mas por trás dele mora o velho vício nacional: meter a mão no bolso do pobre e dizer que é pelo bem dele.

Durante anos, criam impostos, aumentam custos, dificultam a vida de quem compra barato porque não pode comprar caro. Depois, na véspera das eleições, aparecem com cara de salvadores da pátria, dizendo que vão corrigir o problema que eles mesmos ajudaram a criar.

É a velha técnica: acuse-os do que você faz.

Criam o incêndio, vendem o balde d’água e ainda posam para fotografia como bombeiros da República.

A Taxa das Blusinhas não é apenas uma taxa. É símbolo. É o retrato de um Estado que perdeu a vergonha. Um Estado que tributa o mínimo prazer do cidadão comum, enquanto preserva os privilégios dos que vivem no andar de cima da máquina.

O povo compra uma blusinha barata porque o salário é curto, a vida é cara e o dinheiro não estica. Mas, para os iluminados de Brasília, até isso parece afronta. Até a pequena alegria da compra modesta precisa ser alcançada pela garra arrecadatória.

No fim, a pergunta é simples: até quando?

Até quando o povo aceitará ser tratado como fonte inesgotável de dinheiro? Até quando chamaremos de normal essa inversão perversa, em que o Estado manda e o povo obedece?

A política nasceu para organizar a vida coletiva. Mas, sem fiscalização, sem indignação e sem memória, ela vira feira de vaidades, balcão de negócios e fábrica de impostos.

E quando um povo esquece que é patrão, não demora para ser tratado como servo.

Erre Eme

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