Compre O Livro
RM


Categoria: Pensamento

Pensamentos

  • O Travessão (ou uma conversa com minha filha)

    — Pai, por que o senhor usa tanto travessão?

    A pergunta veio simples. Sem crítica. Sem ironia. Apenas curiosidade.

    Mas confesso — doeu um pouco.

    Não porque estivesse errada. Mas porque, às vezes, quando questionam nossa escrita, parece que questionam nossa maneira de pensar.

    Pensei em responder tecnicamente. Dizer que o travessão é recurso estilístico, que cria ênfase, que substitui vírgulas, que destaca termos explicativos.

    Mas a verdade é outra.

    Eu uso travessão porque gosto de marcar o que considero essencial.

    Quando escrevo
    “Meu pai — um grande médico — salvava vidas”,
    não estou apenas explicando quem ele era. Estou segurando o leitor pelo braço e dizendo: “preste atenção nisso”.

    O travessão é a minha maneira de iluminar o que não pode passar despercebido.

    Talvez eu o use porque a vida me ensinou que o essencial quase sempre fica escondido no meio da frase — e eu nunca gostei de deixar o essencial escondido.

    Ele cria pausa.
    Cria tensão.
    Cria respeito.

    Não é excesso.
    É intenção.

    Minha filha talvez veja pontuação.
    Eu vejo respiração.

    Vejo aquele pequeno silêncio antes da verdade.

    E, pensando bem, talvez o travessão diga algo sobre mim. Nunca fui homem de meias-palavras. Quando algo importa, eu separo. Destaco. Enfatizo.

    Não por soberba — mas por convicção.

    Se um dia eu parar de usar travessão, talvez seja porque aprendi a deixar certas coisas passarem despercebidas.

    Mas, por enquanto, não.

    Enquanto eu escrever — haverá pausas marcadas.
    Haverá ênfases assumidas.
    Haverá verdades destacadas.

    E haverá, inevitavelmente — travessões.

    Erre Eme

  • Merda

    Tem cheiro de merda? Então é merda.

    Há cheiros que não pedem licença. Eles chegam antes da palavra, antes da explicação, antes da defesa. O cheiro entra mudo e sai gritando. É assim com merda pisada: ninguém quer ser o dono, todo mundo suspeita do outro, mas o rastro… ah, o rastro é infalível. Ele não mente, não editorializa, não pede direito de resposta.

    E o governo esse ente que deveria cheirar a papel, tinta de caneta e café requentado começou a feder cedo demais. Não foi um odor súbito, foi fermentação. Primeiro um azedume discreto, depois aquele cheiro inconfundível de coisa orgânica em decomposição acelerada. Quando a mídia fareja, meu amigo, já passou do ponto.

    O mais curioso não é o fedor. É a tentativa coletiva de fingir que é perfume.
    — “Não é comigo.”
    — “Deve ser exagero.”
    — “Isso é intriga.”

    Até que alguém olha para o chão… e vê o rastro.

    Aí entra a mídia esperta. Não a valente porque valentia pressupõe risco mas a inteligente, que sabe quando o sistema começa a se livrar do peso morto para sobreviver. Malú Gaspar não gritou “fedor!” por coragem; gritou por olfato treinado. Jornalismo bom é isso: nariz fino em ambiente podre.

    E o espanto nacional foi exatamente zero quando se descobriu que os sapatos não eram de mendigos, nem de figurantes do poder. Nada de sandálias gastas ou solas furadas. Eram sapatos italianos, engraxados por assessores, pisando em tapetes caros e ainda assim, sujos de merda até o tornozelo.

    Banqueiros, magistrados, ministros.
    A nata.
    O andar de cima.
    O “raríssimo”.

    Aliás, esse “raro” virou coisa curiosa: não só preso, mas malcheiroso. Porque há crimes que algemam o corpo e outros que amarram a língua. E quando a língua trava, o cheiro fala.

    O governo tenta sair discretamente da barbearia, mas o problema é que o rastro continua. Cada passo deixa marca. Cada nota oficial espalha mais o cheiro. E quanto mais se caminha, mais evidente fica: não foi acidente, foi hábito. Quem pisa na merda uma vez pode até ser azar; quem pisa todo dia já escolheu o caminho.

    E no fim, como toda tragédia tupiniquim bem escrita, ninguém pede desculpa. Pedem contexto. Pedem calma. Pedem que o público “entenda a complexidade”. Mas merda não é complexa é orgânica, simples e universal. Todo mundo reconhece.

    O Brasil, cansado, já não tapa o nariz. Apenas observa, anota mentalmente o rastro e espera o momento inevitável em que alguém, constrangido demais para continuar, vai ter que parar…
    olhar para a sola do próprio sapato…
    e admitir:

    — “É… fui eu.”

    Até lá, meu amigo, seguimos nesse salão mal ventilado, fingindo que o problema é o desodorante quando, na verdade, o chão inteiro já está sujo.

    E merda à vista, como vocês bem sabem, tem dono. Sempre teve.

    Erre Eme

  • 🖥️ MS-DOS (Microsoft Disk Operating System)

    O MS-DOS foi um sistema operacional — ou seja, o programa que faz o computador funcionar e se comunicar com o usuário. Ele precede o Windows e funcionava por meio de comandos digitados em uma tela preta (sem interface gráfica).

    Principais funções do MS-DOS:

    Controlar o hardware do computador (disco rígido, teclado, impressora etc.);

    Gerenciar arquivos e pastas (copiar, apagar, renomear, mover);

    Executar programas (.EXE, .COM);

    Servir de base para softwares e sistemas empresariais dos anos 1980 e início dos 1990.

    👉 Era amplamente usado antes do Windows 95, quando os PCs ainda dependiam totalmente de comandos manuais, como:

    C:>dir
    C:>copy arquivo.txt a:\

    💾 Clipper

    O Clipper era uma linguagem de programação criada nos anos 1980 para desenvolver sistemas comerciais, principalmente de gestão empresarial (como controle de estoque, vendas, finanças, etc.).

    Ele funcionava dentro do MS-DOS e era derivado da linguagem dBASE, mas muito mais rápido e robusto.
    Empresas, consultórios e órgãos públicos usaram sistemas em Clipper por décadas.

    Principais características do Clipper:

    Linguagem compilada (gerava executáveis rápidos);

    Usava banco de dados do tipo DBF;

    Ideal para criar sistemas de cadastro, relatórios, controle de clientes, etc.;

    Muito usado por programadores brasileiros nos anos 80 e 90.

    Um exemplo simples de código em Clipper:

    USE clientes
    LIST nome, endereco, telefone

    ⚙️ Resumindo:

    Programa Tipo Função principal

    MS-DOS Sistema operacional Executar e controlar o computador por meio de comandos Clipper Linguagem de programação Criar sistemas de gestão e aplicativos comerciais que rodavam no MS-DOS

    Então imagine-se lá pelos idos de 1989…

    Você liga aquele PC XT barulhento, com o monitor de fósforo verde e o disquete rodando. A tela pisca e aparece:

    Starting MS-DOS…

    C:\>

    🧑‍💻 Você, programador experiente, digita o comando para abrir seu sistema comercial feito em Clipper:

    C:\>VENDAS.EXE

    A tela do programa surge assim:

    ========================================

    SISTEMA DE VENDAS – VERSÃO 2.0

    ========================================

    1 – CADASTRAR CLIENTE

    2 – CADASTRAR PRODUTO

    3 – REALIZAR VENDA

    4 – RELATÓRIOS

    5 – SAIR

    —————————————-

    Escolha uma opção: _

    Se o usuário digitasse 1, o sistema abria outro menu:

    —————————————-

    CADASTRO DE CLIENTES

    —————————————-

    NOME: JOÃO CARLOS PASTHUZSCAS DE PAZ

    ENDEREÇO: RUA DAS FLORES, 123

    TELEFONE: (91) 234-5678SALVAR REGISTRO (S/N)? _

    E nos bastidores, o Clipper rodava comandos como:

    USE CLIENTES APPEND BLANK REPLACE NOME WITH “JOÃO CARLOS P. DE PAZ” REPLACE ENDERECO WITH “RUA DAS FLORES, 123″REPLACE TELEFONE WITH “(91) 234-5678” COMMIT

    Quando o trabalho terminava, você saía com:

    C:\>exit

    💾 Resumo do clima da época:Tudo era texto puro (sem mouse nem janelas); O som do disco rígido era constante; E cada linha de código era digitada com orgulho e paciência.

    Erre Eme