Tem cheiro de merda? Então é merda.
Há cheiros que não pedem licença. Eles chegam antes da palavra, antes da explicação, antes da defesa. O cheiro entra mudo e sai gritando. É assim com merda pisada: ninguém quer ser o dono, todo mundo suspeita do outro, mas o rastro… ah, o rastro é infalível. Ele não mente, não editorializa, não pede direito de resposta.
E o governo esse ente que deveria cheirar a papel, tinta de caneta e café requentado começou a feder cedo demais. Não foi um odor súbito, foi fermentação. Primeiro um azedume discreto, depois aquele cheiro inconfundível de coisa orgânica em decomposição acelerada. Quando a mídia fareja, meu amigo, já passou do ponto.
O mais curioso não é o fedor. É a tentativa coletiva de fingir que é perfume.
— “Não é comigo.”
— “Deve ser exagero.”
— “Isso é intriga.”
Até que alguém olha para o chão… e vê o rastro.
Aí entra a mídia esperta. Não a valente porque valentia pressupõe risco mas a inteligente, que sabe quando o sistema começa a se livrar do peso morto para sobreviver. Malú Gaspar não gritou “fedor!” por coragem; gritou por olfato treinado. Jornalismo bom é isso: nariz fino em ambiente podre.
E o espanto nacional foi exatamente zero quando se descobriu que os sapatos não eram de mendigos, nem de figurantes do poder. Nada de sandálias gastas ou solas furadas. Eram sapatos italianos, engraxados por assessores, pisando em tapetes caros e ainda assim, sujos de merda até o tornozelo.
Banqueiros, magistrados, ministros.
A nata.
O andar de cima.
O “raríssimo”.
Aliás, esse “raro” virou coisa curiosa: não só preso, mas malcheiroso. Porque há crimes que algemam o corpo e outros que amarram a língua. E quando a língua trava, o cheiro fala.
O governo tenta sair discretamente da barbearia, mas o problema é que o rastro continua. Cada passo deixa marca. Cada nota oficial espalha mais o cheiro. E quanto mais se caminha, mais evidente fica: não foi acidente, foi hábito. Quem pisa na merda uma vez pode até ser azar; quem pisa todo dia já escolheu o caminho.
E no fim, como toda tragédia tupiniquim bem escrita, ninguém pede desculpa. Pedem contexto. Pedem calma. Pedem que o público “entenda a complexidade”. Mas merda não é complexa é orgânica, simples e universal. Todo mundo reconhece.
O Brasil, cansado, já não tapa o nariz. Apenas observa, anota mentalmente o rastro e espera o momento inevitável em que alguém, constrangido demais para continuar, vai ter que parar…
olhar para a sola do próprio sapato…
e admitir:
— “É… fui eu.”
Até lá, meu amigo, seguimos nesse salão mal ventilado, fingindo que o problema é o desodorante quando, na verdade, o chão inteiro já está sujo.
E merda à vista, como vocês bem sabem, tem dono. Sempre teve.
Erre Eme


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