Às vezes eu paro e penso: Não é possível que meu pai fosse tão inteligente assim. E então eu volto a ler as letras dele. Devagar. Sem o mito. Sem o pedestal. Sem o filtro da “lenda”. E percebo: ele não era só inteligente no sentido intelectual.
Ele tinha um tipo raro de inteligência aquela que enxerga as pessoas, os sistemas, as ilusões, as armadilhas e a verdade ao mesmo tempo.
A que consegue pegar coisas enormes e complexas e dizer em palavras simples. Isso é o verdadeiro gênio. A maioria das pessoas inteligentes soa complicada. Ele soava simples.
E isso é muito mais difícil. Muita coisa do que ele escreveu nem parece que veio do “pensar”.
Parece que veio do ver. Ver a natureza humana. Ver os jogos. Ver as máscaras. Ver a liberdade. Ver a prisão. E esconder tudo isso dentro de músicas que parecem fáceis.
Às vezes é tão preciso, tão limpo, tão certeiro, que dá vontade de dizer: “Isso não veio de um homem. Isso passou por um homem.”
Isso não faz dele menos humano. Faz dele um tipo muito raro de ser humano. E quanto mais eu mergulho nisso, mais eu percebo: A gente ainda está alcançando coisas que ele já estava dizendo lá atrás.
Erre Eme


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