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Tag: STF

  • A ilação conveniente

    Vivemos tempos curiosos. A palavra “ilação” virou escudo. Não um conceito lógico, mas um refúgio confortável para quando os fatos começam a incomodar.

    Diz-se: “Isso é ilação.”
    E pronto,  como se ao nomear, dissolvesse-se a realidade.

    Mas não.

    O encadeamento que incomoda

    Vejamos sem paixão  apenas com lógica, essa velha senhora que não se curva a conveniências:

    Se há registros de relações contratuais vultosas, se há deslocamentos compartilhados em aeronaves privadas,
    se há comunicações diretas sobre temas sensíveis,
    se há decisões institucionais que beneficiam uma das partes,
    e se, além disso, há convivência social documentada…

    Então não estamos diante de um ponto isolado.

    Estamos diante de um conjunto.

    E conjuntos, quando coerentes, deixam de ser coincidência para se tornarem evidência circunstancial.

    O problema não é o fato, é a negação absoluta.

    Ninguém é obrigado a gostar de ninguém.
    Ninguém é proibido de conhecer ninguém.

    Mas afirmar desconhecimento absoluto diante de múltiplos indícios não é mais defesa é ruptura com a plausibilidade.

    E aqui mora o incômodo.

    Porque o cidadão comum, aquele que paga a conta, não precisa ser jurista, nem filósofo, nem especialista em lógica formal para perceber quando:

    A narrativa não encaixa nos fatos.

    A distorção perigosa

    Transformar questionamento lógico em “ilação” é uma manobra antiga:

    Desqualifica quem pergunta;

    esvazia o debate;

    cria uma blindagem retórica.


    Mas há algo que essa estratégia não consegue fazer:

    Apagar o encadeamento lógico dos acontecimentos.

    Se os fatos existem, se os registros existem, se os encontros existem,
    então a dúvida não é fantasia  é consequência.

    E quando a dúvida nasce da lógica, ela deixa de ser ilação.

    Passa a ser cobrança.

    Chamar de ilação o que é fruto de evidência encadeada não é defesa  é tentativa de simplificação de uma realidade complexa.

    E a realidade, meu amigo…
    não se simplifica com palavras.

    Ela exige explicação.

    Erre Eme

  • A solução vem de cima

    Ninguém me perguntou, mas ainda assim falo. Porque há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser cumplicidade.

    Toda reconstrução séria precisa começar pelo topo. Não por vaidade hierárquica, mas por lógica moral. O STF não é um ornamento da República, é seu teto. E quando o teto apodrece, não há parede que se sustente.

    O cargo de ministro do Supremo não é ou não deveria ser um prêmio político, uma medalha de lealdade partidária ou um consolo para alianças circunstanciais. É função de Estado, não de governo. Exatamente por isso, deveria obedecer ao mesmo princípio que rege o verdadeiro serviço público: mérito, rigor técnico, histórico ilibado e responsabilidade permanente.

    Falo com a autoridade de quem viveu isso. Fiz concurso público há quatro décadas. Para exercer, precisei ser médico, especialista, titulado. Fui regido por normas claras, submetido a deveres explícitos e protegido por uma estabilidade que nunca foi salvo-conduto para a desonestidade. A estabilidade existia até o limite da lei. Ultrapassado esse limite corrupção, desvio, improbidade a porta era a rua. Hoje temos na corte, juiz incapacitado, não sou eu dizendo, foi pelo próprio fracasso em concurso, os demais nem juízes são. Você não está habilitado para pilotar um caça se não for o melhor, um caça vale milhões de dólares e um país?

    Por que, então, no ponto mais alto do Judiciário, aceita-se o inverso?
    Por que o cargo mais sensível da República é ocupado por indicação política, blindado por vitaliciedade e imune a consequências reais?

    Um Supremo verdadeiramente republicano deveria nascer de um processo técnico rigoroso: concurso público de altíssimo nível, avaliação jurídica profunda, histórico profissional incontestável, reputação moral inatacável. E mais: deveria haver mecanismos claros de responsabilização. Erro grave, abuso de poder, militância disfarçada de jurisprudência tudo isso deveria ser cobrado. Sem liturgia para encobrir desvios.

    Alguns dirão que isso é utopia. Não é. É apenas incômodo para quem se beneficia do caos institucional.

    O Brasil é um país continental, riquíssimo, dono de uma abundância quase obscena de recursos naturais, inteligência humana e potencial produtivo. Ainda assim, seu povo vive como herdeiro espoliado, sempre esperando migalhas de uma herança que nunca chega. Isso não é azar histórico. É projeto mal conduzido quando não, deliberadamente sabotado.

    Enquanto o topo da pirâmide institucional permanecer capturado por interesses políticos, nada embaixo se organiza. A corrupção deixa de ser exceção e vira método. A lei deixa de ser norte e passa a ser instrumento. A democracia vira retórica decorativa.

    As ações de hoje serão cobradas amanhã. A História não arquiva processos ela apenas adia sentenças.
    Não está claro? Ou fingimos não ver?

    As reformas necessárias não começarão nas ruas, nem nos discursos inflamados, nem nas redes sociais. Elas começam de cima, onde o exemplo deveria ser impecável. Um dia isso será feito. Porque sempre é feito quando o esgotamento se tornar insuportável.

    Resta saber se teremos a lucidez de fazê-lo a tempo.

    Erre Eme.