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As Frescuras

Chegue mais perto mas com cuidado, porque hoje até a proximidade pode ser interpretada como invasão. Vivemos um tempo curioso: não é mais o silêncio que constrange, é a palavra. Falar virou um campo minado, onde cada sílaba precisa de autorização prévia, quase como se a espontaneidade tivesse sido colocada em quarentena.

E veja a ironia: nunca se falou tanto e nunca se disse tão pouco.

O episódio envolvendo Neymar é apenas mais um sintoma dessa nova era. Em campo, ambiente historicamente regido pela emoção, pelo improviso, pelo calor humano, ousou expressar sua insatisfação com uma frase corriqueira: o árbitro “estava de Chico”. Bastou. Cartão. Advertência. Punição.

Não pela violência do gesto, mas pela suspeita da palavra.

O futebol, outrora território da catarse, começa a flertar com o manual de etiqueta. Em breve, talvez, substituam o apito por um código de conduta e o gol por um parecer técnico.

Mas o problema não está no Neymar. Ele apenas encenou, diante das câmeras, o que já acontece silenciosamente nas relações do dia a dia.

Antigamente e aqui não se trata de nostalgia vazia, mas de realidade vivida — havia uma gramática própria da amizade. Uma linguagem que, para os de fora, parecia rude; para os de dentro, era afeto em estado bruto.

“Fala, seu feio!”
“E aí, cabeção!”
“Ô baixinho, cresce não?”
“Rapaz, com essa cara nem documento precisa!”

E todos riam.

Não porque faltava respeito mas porque sobrava intimidade. Porque havia história, convivência, confiança. Só se brinca assim com quem é próximo. A brincadeira era, paradoxalmente, um selo de aceitação. Uma forma quase primitiva, mas genuína, de pertencimento.

Hoje, essa linguagem foi criminalizada não por aquilo que é, mas por aquilo que pode parecer ser.

A intenção morreu.

No seu lugar, instaurou-se a interpretação. E não qualquer interpretação mas sempre a mais severa, a mais acusatória, a mais conveniente para o ofendido de ocasião.

Criou-se uma sociedade onde o direito de se sentir ofendido vale mais do que o dever de compreender.

E assim, caminhamos para um modelo curioso: exige-se respeito irrestrito, mas pratica-se uma intolerância seletiva. Celebra-se a diversidade desde que ela não inclua divergência. Aceita-se tudo exceto o contraditório.

Discordar virou agressão. Brincar virou risco. Falar virou ousadia.

E, pouco a pouco, substituímos a leveza da convivência por uma formalidade estéril, onde todos se policiam e ninguém se revela. Uma sociedade de aparências corretas e relações vazias.

No fundo, não são apenas “frescuras”.

É algo mais grave: uma fragilidade que não suporta o atrito natural da vida em comum. Uma geração que exige blindagem emocional em um mundo que nunca prometeu conforto permanente.

Porque viver em sociedade não é encontrar espelhos é lidar com diferenças.

E quem não suporta isso… não quer respeito.

Quer submissão.

Quer um mundo onde todos falem baixo, pensem igual e caminhem em linha.

Mas a história já mostrou repetidas vezes que onde a palavra precisa de permissão, a liberdade já foi embora.

E quando a liberdade vai embora… o silêncio não é educação.

É medo.

Erre Eme

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