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Tag: Política

  • A Guerra

    A guerra talvez seja a mais antiga e vergonhosa prova de que a inteligência humana nem sempre caminha ao lado da sabedoria.

    Uma espécie capaz de alcançar as estrelas, dividir o átomo, manipular a genética e sondar os mistérios do universo permanece, paradoxalmente, incapaz de abandonar seu mais primitivo instinto: destruir a si mesma.

    Sob o pesado manto da ganância, da corrupção e da sede insaciável de poder, continuam os homens a mover peças em tabuleiros de sangue como se vidas humanas fossem meros números de estatística.

    Decidem conflitos em salas refrigeradas, sobre mesas de madeira nobre, enquanto crianças morrem soterradas sob concreto, mães choram sobre escombros fumegantes, e inocentes pagam, com a própria carne, a conta da vaidade de governantes que jamais sentirão o cheiro da pólvora no front.

    Quanto mais evolui a tecnologia, mais se aperfeiçoa a barbárie.
    Se outrora se matava com espada e mosquete, hoje se pulveriza com drones, mísseis guiados, bombas inteligentes — ironicamente chamadas assim, quando nada há de inteligente em ceifar vidas humanas aos milhares.

    E os que ordenam os disparos, protegidos por quilômetros de distância e muralhas diplomáticas, tornam-se cada vez mais embriagados por uma sensação quase divina de poder.
    Falam em “danos colaterais” como quem comenta números frios de mercado, transformando mutilações humanas em linguagem burocrática, como se amputações, órfãos e cadáveres fossem apenas efeitos secundários inevitáveis de um cálculo estratégico.

    Há, nesses homens, um delírio crescente — quase patológico — de onipotência.
    Sentem-se inalcançáveis.
    Intocáveis.
    Como se a distância entre sua caneta e o campo de batalha os absolvesse moralmente da carnificina que autorizam.

    Mas eis a grande ironia da guerra moderna:
    na próxima grande conflagração mundial, talvez não exista bunker suficientemente profundo, muralha suficientemente espessa ou subterrâneo suficientemente oculto que garanta proteção real.
    A tecnologia tornou o mundo pequeno demais para esconder covardes.

    Talvez o único lugar verdadeiramente seguro fosse justamente o centro das decisões militares — mas este, ironicamente, será sempre o primeiro alvo.
    Porque quem semeia destruição costuma esquecer que o fogo, uma vez espalhado, raramente respeita a direção do vento.

    Por isso, talvez fosse mais digno, mais lógico e infinitamente mais honesto, que os próprios mandatários que decretam guerras resolvessem entre si suas disputas.
    Que vestissem suas fardas, empunhassem suas armas, e marchassem pessoalmente para os campos de batalha que tanto defendem da segurança de seus púlpitos.

    Ali, frente a frente, sem exércitos, sem inocentes, sem bandeiras atrás das quais esconderem suas ambições, talvez descobrissem rapidamente a verdade mais simples e antiga da humanidade:

    Quando um não quer, dois não brigam.

    E talvez bastasse ao primeiro sentir o peso real da morte diante dos próprios olhos para que toda sua valentia evaporasse como fumaça ao vento.

    Porque é fácil desejar guerra quando quem morre é o filho do outro.
    Difícil é manter o discurso inflamado quando o sangue derramado pode ser o próprio.

    No fundo, toda guerra nasce do mesmo ventre:
    o orgulho desmedido de poucos e o sofrimento inevitável de muitos.

    E enquanto a humanidade continuar permitindo que homens vaidosos decidam destinos alheios sem jamais provarem o gosto amargo de suas próprias decisões, seguiremos chamando de civilização aquilo que, muitas vezes, não passa de barbárie bem vestida.

    Erre Eme

  • O homem-mulher

    Vivemos tempos curiosos. Não apenas estranhos, mas curiosos no sentido quase clínico da palavra: dignos de observação, anotação e quem sabe, diagnóstico.

    A mulher, que outrora lutou para ser ouvida, hoje parece paradoxalmente, correr o risco de ser substituída no próprio palco onde deveria ser protagonista. Não por homens no sentido clássico — isso seria até banal — mas por uma versão reinterpretada, reciclada, adaptada… uma espécie de mulher conceitual, cuidadosamente moldada para caber melhor no discurso do que na realidade.

    E aqui começa o desconforto.

    Porque enquanto o discurso avança, o corpo não acompanha.

    O corpo continua tendo útero — ou não.
    Continua tendo ovários — ou não.
    Continua adoecendo — com uma fidelidade quase ofensiva à biologia.

    Mas a política… ah, a política não gosta de limites. Muito menos dos impostos pela natureza.

    Criaram então, algo admirável: uma comissão para tratar dos problemas da mulher. Nome bonito, intenção nobre, fotografia perfeita. Seria o espaço ideal para discutir o que realmente importa — prevenção de câncer, acesso a exames, diagnóstico precoce, saúde reprodutiva, dignidade no cuidado.

    Mas eis que, num movimento digno de nota, escolhe-se para liderar esse espaço alguém cuja relação com esses problemas é, no mínimo, teórica.

    E aqui não se trata de ataque pessoal — seria pequeno demais. Trata-se de lógica.

    Porque há uma diferença brutal entre defender uma causa e encarnar essa causa.

    Quem nunca teve ovário pode estudar ovário — mas não o teme.
    Quem nunca teve útero pode ler sobre útero — mas não o sente.
    Quem nunca amamentou pode discursar sobre amamentação – mas jamais compreenderá aquele momento em que o corpo decide, por conta própria, alimentar outro ser humano.

    E não, isso não é preconceito.

    Isso é realidade.

    Mas a realidade, ao que parece, anda fora de moda.

    Preferiu-se substituí-la por uma espécie de teatro conceitual, onde identidade vale mais que biologia, e vivência pode ser trocada por narrativa bem construída.

    E assim seguimos.

    Discutindo “lugar de fala” exceto quando ele incomoda.
    Defendendo inclusão exceto quando ela exige coerência.
    Falando de ciência enquanto convenientemente a ignoramos.

    O mais curioso, meu amigo, é que tudo isso vem embalado como progresso.

    Um progresso que, ironicamente, parece começar desmontando aquilo que levou milênios para ser construído: a própria noção de mulher enquanto realidade concreta.

    Transformaram-na em ideia.

    E ideias não engravidam.
    Ideias não adoecem.
    Ideias não precisam de ultrassom, de PCCU, de diagnóstico precoce.

    Ideias são perfeitas justamente porque não existem.

    Talvez seja esse o objetivo final: uma mulher que não sangra, não gesta, não envelhece, não adoece… uma mulher sem inconvenientes biológicos.

    Uma mulher… confortável.

    Enquanto isso, a mulher real — de carne, osso e história — continua lá fora, enfrentando filas, diagnósticos tardios, negligência disfarçada de discurso bonito.

    Mas fiquemos tranquilos.

    Ela agora está muito bem representada.

    Ao menos no papel.

    Erre Eme

  • As Frescuras

    Chegue mais perto mas com cuidado, porque hoje até a proximidade pode ser interpretada como invasão. Vivemos um tempo curioso: não é mais o silêncio que constrange, é a palavra. Falar virou um campo minado, onde cada sílaba precisa de autorização prévia, quase como se a espontaneidade tivesse sido colocada em quarentena.

    E veja a ironia: nunca se falou tanto e nunca se disse tão pouco.

    O episódio envolvendo Neymar é apenas mais um sintoma dessa nova era. Em campo, ambiente historicamente regido pela emoção, pelo improviso, pelo calor humano, ousou expressar sua insatisfação com uma frase corriqueira: o árbitro “estava de Chico”. Bastou. Cartão. Advertência. Punição.

    Não pela violência do gesto, mas pela suspeita da palavra.

    O futebol, outrora território da catarse, começa a flertar com o manual de etiqueta. Em breve, talvez, substituam o apito por um código de conduta e o gol por um parecer técnico.

    Mas o problema não está no Neymar. Ele apenas encenou, diante das câmeras, o que já acontece silenciosamente nas relações do dia a dia.

    Antigamente e aqui não se trata de nostalgia vazia, mas de realidade vivida — havia uma gramática própria da amizade. Uma linguagem que, para os de fora, parecia rude; para os de dentro, era afeto em estado bruto.

    “Fala, seu feio!”
    “E aí, cabeção!”
    “Ô baixinho, cresce não?”
    “Rapaz, com essa cara nem documento precisa!”

    E todos riam.

    Não porque faltava respeito mas porque sobrava intimidade. Porque havia história, convivência, confiança. Só se brinca assim com quem é próximo. A brincadeira era, paradoxalmente, um selo de aceitação. Uma forma quase primitiva, mas genuína, de pertencimento.

    Hoje, essa linguagem foi criminalizada não por aquilo que é, mas por aquilo que pode parecer ser.

    A intenção morreu.

    No seu lugar, instaurou-se a interpretação. E não qualquer interpretação mas sempre a mais severa, a mais acusatória, a mais conveniente para o ofendido de ocasião.

    Criou-se uma sociedade onde o direito de se sentir ofendido vale mais do que o dever de compreender.

    E assim, caminhamos para um modelo curioso: exige-se respeito irrestrito, mas pratica-se uma intolerância seletiva. Celebra-se a diversidade desde que ela não inclua divergência. Aceita-se tudo exceto o contraditório.

    Discordar virou agressão. Brincar virou risco. Falar virou ousadia.

    E, pouco a pouco, substituímos a leveza da convivência por uma formalidade estéril, onde todos se policiam e ninguém se revela. Uma sociedade de aparências corretas e relações vazias.

    No fundo, não são apenas “frescuras”.

    É algo mais grave: uma fragilidade que não suporta o atrito natural da vida em comum. Uma geração que exige blindagem emocional em um mundo que nunca prometeu conforto permanente.

    Porque viver em sociedade não é encontrar espelhos é lidar com diferenças.

    E quem não suporta isso… não quer respeito.

    Quer submissão.

    Quer um mundo onde todos falem baixo, pensem igual e caminhem em linha.

    Mas a história já mostrou repetidas vezes que onde a palavra precisa de permissão, a liberdade já foi embora.

    E quando a liberdade vai embora… o silêncio não é educação.

    É medo.

    Erre Eme

  • A ilação conveniente

    Vivemos tempos curiosos. A palavra “ilação” virou escudo. Não um conceito lógico, mas um refúgio confortável para quando os fatos começam a incomodar.

    Diz-se: “Isso é ilação.”
    E pronto,  como se ao nomear, dissolvesse-se a realidade.

    Mas não.

    O encadeamento que incomoda

    Vejamos sem paixão  apenas com lógica, essa velha senhora que não se curva a conveniências:

    Se há registros de relações contratuais vultosas, se há deslocamentos compartilhados em aeronaves privadas,
    se há comunicações diretas sobre temas sensíveis,
    se há decisões institucionais que beneficiam uma das partes,
    e se, além disso, há convivência social documentada…

    Então não estamos diante de um ponto isolado.

    Estamos diante de um conjunto.

    E conjuntos, quando coerentes, deixam de ser coincidência para se tornarem evidência circunstancial.

    O problema não é o fato, é a negação absoluta.

    Ninguém é obrigado a gostar de ninguém.
    Ninguém é proibido de conhecer ninguém.

    Mas afirmar desconhecimento absoluto diante de múltiplos indícios não é mais defesa é ruptura com a plausibilidade.

    E aqui mora o incômodo.

    Porque o cidadão comum, aquele que paga a conta, não precisa ser jurista, nem filósofo, nem especialista em lógica formal para perceber quando:

    A narrativa não encaixa nos fatos.

    A distorção perigosa

    Transformar questionamento lógico em “ilação” é uma manobra antiga:

    Desqualifica quem pergunta;

    esvazia o debate;

    cria uma blindagem retórica.


    Mas há algo que essa estratégia não consegue fazer:

    Apagar o encadeamento lógico dos acontecimentos.

    Se os fatos existem, se os registros existem, se os encontros existem,
    então a dúvida não é fantasia  é consequência.

    E quando a dúvida nasce da lógica, ela deixa de ser ilação.

    Passa a ser cobrança.

    Chamar de ilação o que é fruto de evidência encadeada não é defesa  é tentativa de simplificação de uma realidade complexa.

    E a realidade, meu amigo…
    não se simplifica com palavras.

    Ela exige explicação.

    Erre Eme

  • Silogia Triste de um País

    Premissa maior:

    Toda nação em que a cobiça pelo dinheiro público se torna prática tolerada, onde o poder é exercido para benefício próprio e as instituições perdem sua função moral, caminha inevitavelmente para a deterioração.

    Premissa menor: Observa-se:

    Uma parcela da sociedade que enxerga o Estado como fonte de proveito contínuo, dissociando direitos de deveres;

    Um Congresso disposto a negociar princípios por conveniência, mesmo quando isso implica prejuízo aos mais frágeis;

    Magistrados que, ao invés de guardiões da Constituição, deixam-se seduzir pela expansão de poder; E, simultaneamente, um país vasto, rico em água, minerais, terras agricultáveis e energia, com capacidade produtiva suficiente para alimentar múltiplas vezes sua própria população.

    O contraste é evidente: abundância natural coexistindo com escassez ética.

    Conclusão lógica:

    Riqueza material não garante prosperidade social.
    Sem integridade institucional, até a nação mais favorecida pela natureza pode definhar.

    A história demonstra que grandes civilizações não ruíram por falta de recursos, mas por erosão interna. O Império Romano não sucumbiu por pobreza territorial, e a Venezuela não colapsou por ausência de riquezas naturais. A decadência começou quando instituições foram enfraquecidas e valores substituídos por interesses imediatos.

    Não basta reconhecer as premissas e concluir que “não dará certo”.
    A constatação do problema não exime a responsabilidade de enfrentá-lo.

    Silenciar diante do descompasso entre potencial e realidade é consentir.
    A indignação, quando fundamentada, transforma-se em dever cívico.

    Se as premissas indicam risco, a resposta não pode ser resignação.
    A resposta deve ser reflexão, expressão e vigilância.

    Porque países não fracassam apenas por erros ativos, mas também pela passividade dos que percebem e nada dizem.

    Erre Eme