Tenho continuado em minha luta hercúlea e por vezes aparentemente infrutífera para demonstrar por que certas formas de organização social, como o socialismo, o nazismo e o fascismo, acabam por concentrar poder demais em poucos e liberdade de menos para muitos. Para ilustrar o tema, recorrerei a uma metáfora simples.
Lembro-me de uma grande fábrica de autopeças em que trabalhei quando recém-formado em São Paulo. Era uma estrutura impressionante, com cerca de vinte e dois mil funcionários. Seu proprietário era um homem que gostava de discursos grandiosos. Falava frequentemente em justiça social, igualdade econômica e, principalmente, na ideia que fazia brilhar os olhos dos trabalhadores: a divisão dos lucros.
Aquilo soava como música celestial.
— Finalmente vamos participar da riqueza que ajudamos a produzir!
Era o sonho de muitos. Alguns já imaginavam prestações quitadas, carros novos, viagens e até uma aposentadoria antecipada. Afinal, se uma empresa tão gigantesca faturava milhões, a divisão dos lucros só poderia transformar todos em pequenos milionários.
Chegado o grande momento, os contadores iniciaram os cálculos.
Primeiro vieram os salários.
Depois os impostos.
Em seguida os insumos.
A manutenção das máquinas.
A energia elétrica.
O transporte.
As viagens.
Os jantares de negócios.
Os financiamentos.
Os seguros.
As despesas administrativas.
Os investimentos obrigatórios.
As reservas para crises futuras.
A renovação de equipamentos.
E até os custos das inevitáveis trapalhadas humanas, que toda grande empresa acumula ao longo do ano.
Quando a poeira baixou e todas as contas foram pagas, restaram exatos quarenta e quatro mil reais de lucro líquido.
Era a hora tão esperada.
Os quarenta e quatro mil reais foram divididos entre os vinte e dois mil funcionários.
Resultado: dois reais para cada um.
Dois.
Reais.
Não dois mil.
Não duzentos.
Não vinte.
Dois.
Houve quem recebesse a notícia com a mesma expressão de quem encontra um tesouro e descobre que o baú estava vazio.
Naquele instante muitos compreenderam uma realidade frequentemente ignorada: faturamento não é lucro, e lucro não é riqueza infinita.
A empresa precisava reinvestir para sobreviver. Máquinas envelhecem. Equipamentos quebram. A concorrência avança. Mercados mudam. Sem capital para expansão e modernização, qualquer gigante começa lentamente a enferrujar.
E foi exatamente o que aconteceu.
Sem capacidade de investir adequadamente, a fábrica foi perdendo competitividade. O que parecia um paraíso econômico tornou-se uma estrutura pesada, cara e cada vez menos eficiente.
Anos depois, fechou as portas.
Os empregos desapareceram.
Os lucros desapareceram.
E os dois reais, evidentemente, também.
A moral da história é simples: distribuir riqueza antes de criá-la é ilusão; distribuir tudo o que se produz sem reinvestir é receita para a falência. O problema nunca foi dividir os frutos do trabalho. O problema é imaginar que existe fruto sem árvore, ou que a árvore continuará produzindo depois de cortada.
Foi uma lição econômica dura, prática e inesquecível.
Depois daquele episódio, curiosamente, nunca mais ouvi ninguém naquela fábrica falar com tanto entusiasmo sobre a salvação universal prometida pela simples divisão dos lucros.
Erre Eme


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