Vivemos tempos curiosos. Não apenas estranhos, mas curiosos no sentido quase clínico da palavra: dignos de observação, anotação e quem sabe, diagnóstico.
A mulher, que outrora lutou para ser ouvida, hoje parece paradoxalmente, correr o risco de ser substituída no próprio palco onde deveria ser protagonista. Não por homens no sentido clássico — isso seria até banal — mas por uma versão reinterpretada, reciclada, adaptada… uma espécie de mulher conceitual, cuidadosamente moldada para caber melhor no discurso do que na realidade.
E aqui começa o desconforto.
Porque enquanto o discurso avança, o corpo não acompanha.
O corpo continua tendo útero — ou não.
Continua tendo ovários — ou não.
Continua adoecendo — com uma fidelidade quase ofensiva à biologia.
Mas a política… ah, a política não gosta de limites. Muito menos dos impostos pela natureza.
Criaram então, algo admirável: uma comissão para tratar dos problemas da mulher. Nome bonito, intenção nobre, fotografia perfeita. Seria o espaço ideal para discutir o que realmente importa — prevenção de câncer, acesso a exames, diagnóstico precoce, saúde reprodutiva, dignidade no cuidado.
Mas eis que, num movimento digno de nota, escolhe-se para liderar esse espaço alguém cuja relação com esses problemas é, no mínimo, teórica.
E aqui não se trata de ataque pessoal — seria pequeno demais. Trata-se de lógica.
Porque há uma diferença brutal entre defender uma causa e encarnar essa causa.
Quem nunca teve ovário pode estudar ovário — mas não o teme.
Quem nunca teve útero pode ler sobre útero — mas não o sente.
Quem nunca amamentou pode discursar sobre amamentação – mas jamais compreenderá aquele momento em que o corpo decide, por conta própria, alimentar outro ser humano.
E não, isso não é preconceito.
Isso é realidade.
Mas a realidade, ao que parece, anda fora de moda.
Preferiu-se substituí-la por uma espécie de teatro conceitual, onde identidade vale mais que biologia, e vivência pode ser trocada por narrativa bem construída.
E assim seguimos.
Discutindo “lugar de fala” exceto quando ele incomoda.
Defendendo inclusão exceto quando ela exige coerência.
Falando de ciência enquanto convenientemente a ignoramos.
O mais curioso, meu amigo, é que tudo isso vem embalado como progresso.
Um progresso que, ironicamente, parece começar desmontando aquilo que levou milênios para ser construído: a própria noção de mulher enquanto realidade concreta.
Transformaram-na em ideia.
E ideias não engravidam.
Ideias não adoecem.
Ideias não precisam de ultrassom, de PCCU, de diagnóstico precoce.
Ideias são perfeitas justamente porque não existem.
Talvez seja esse o objetivo final: uma mulher que não sangra, não gesta, não envelhece, não adoece… uma mulher sem inconvenientes biológicos.
Uma mulher… confortável.
Enquanto isso, a mulher real — de carne, osso e história — continua lá fora, enfrentando filas, diagnósticos tardios, negligência disfarçada de discurso bonito.
Mas fiquemos tranquilos.
Ela agora está muito bem representada.
Ao menos no papel.
Erre Eme

