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  • A solução vem de cima

    Ninguém me perguntou, mas ainda assim falo. Porque há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser cumplicidade.

    Toda reconstrução séria precisa começar pelo topo. Não por vaidade hierárquica, mas por lógica moral. O STF não é um ornamento da República, é seu teto. E quando o teto apodrece, não há parede que se sustente.

    O cargo de ministro do Supremo não é ou não deveria ser um prêmio político, uma medalha de lealdade partidária ou um consolo para alianças circunstanciais. É função de Estado, não de governo. Exatamente por isso, deveria obedecer ao mesmo princípio que rege o verdadeiro serviço público: mérito, rigor técnico, histórico ilibado e responsabilidade permanente.

    Falo com a autoridade de quem viveu isso. Fiz concurso público há quatro décadas. Para exercer, precisei ser médico, especialista, titulado. Fui regido por normas claras, submetido a deveres explícitos e protegido por uma estabilidade que nunca foi salvo-conduto para a desonestidade. A estabilidade existia até o limite da lei. Ultrapassado esse limite corrupção, desvio, improbidade a porta era a rua. Hoje temos na corte, juiz incapacitado, não sou eu dizendo, foi pelo próprio fracasso em concurso, os demais nem juízes são. Você não está habilitado para pilotar um caça se não for o melhor, um caça vale milhões de dólares e um país?

    Por que, então, no ponto mais alto do Judiciário, aceita-se o inverso?
    Por que o cargo mais sensível da República é ocupado por indicação política, blindado por vitaliciedade e imune a consequências reais?

    Um Supremo verdadeiramente republicano deveria nascer de um processo técnico rigoroso: concurso público de altíssimo nível, avaliação jurídica profunda, histórico profissional incontestável, reputação moral inatacável. E mais: deveria haver mecanismos claros de responsabilização. Erro grave, abuso de poder, militância disfarçada de jurisprudência tudo isso deveria ser cobrado. Sem liturgia para encobrir desvios.

    Alguns dirão que isso é utopia. Não é. É apenas incômodo para quem se beneficia do caos institucional.

    O Brasil é um país continental, riquíssimo, dono de uma abundância quase obscena de recursos naturais, inteligência humana e potencial produtivo. Ainda assim, seu povo vive como herdeiro espoliado, sempre esperando migalhas de uma herança que nunca chega. Isso não é azar histórico. É projeto mal conduzido quando não, deliberadamente sabotado.

    Enquanto o topo da pirâmide institucional permanecer capturado por interesses políticos, nada embaixo se organiza. A corrupção deixa de ser exceção e vira método. A lei deixa de ser norte e passa a ser instrumento. A democracia vira retórica decorativa.

    As ações de hoje serão cobradas amanhã. A História não arquiva processos ela apenas adia sentenças.
    Não está claro? Ou fingimos não ver?

    As reformas necessárias não começarão nas ruas, nem nos discursos inflamados, nem nas redes sociais. Elas começam de cima, onde o exemplo deveria ser impecável. Um dia isso será feito. Porque sempre é feito quando o esgotamento se tornar insuportável.

    Resta saber se teremos a lucidez de fazê-lo a tempo.

    Erre Eme.

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  • Meu pai.

    Às vezes eu paro e penso: Não é possível que meu pai fosse tão inteligente assim. E então eu volto a ler as letras dele. Devagar. Sem o mito. Sem o pedestal. Sem o filtro da “lenda”. E percebo: ele não era só inteligente no sentido intelectual.

    Ele tinha um tipo raro de inteligência aquela que enxerga as pessoas, os sistemas, as ilusões, as armadilhas e a verdade ao mesmo tempo.

    A que consegue pegar coisas enormes e complexas e dizer em palavras simples. Isso é o verdadeiro gênio. A maioria das pessoas inteligentes soa complicada. Ele soava simples.

    E isso é muito mais difícil. Muita coisa do que ele escreveu nem parece que veio do “pensar”.

    Parece que veio do ver. Ver a natureza humana. Ver os jogos. Ver as máscaras. Ver a liberdade. Ver a prisão. E esconder tudo isso dentro de músicas que parecem fáceis.

    Às vezes é tão preciso, tão limpo, tão certeiro, que dá vontade de dizer: “Isso não veio de um homem. Isso passou por um homem.”

    Isso não faz dele menos humano. Faz dele um tipo muito raro de ser humano. E quanto mais eu mergulho nisso, mais eu percebo: A gente ainda está alcançando coisas que ele já estava dizendo lá atrás.

    Erre Eme

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  • Merda

    Tem cheiro de merda? Então é merda.

    Há cheiros que não pedem licença. Eles chegam antes da palavra, antes da explicação, antes da defesa. O cheiro entra mudo e sai gritando. É assim com merda pisada: ninguém quer ser o dono, todo mundo suspeita do outro, mas o rastro… ah, o rastro é infalível. Ele não mente, não editorializa, não pede direito de resposta.

    E o governo esse ente que deveria cheirar a papel, tinta de caneta e café requentado começou a feder cedo demais. Não foi um odor súbito, foi fermentação. Primeiro um azedume discreto, depois aquele cheiro inconfundível de coisa orgânica em decomposição acelerada. Quando a mídia fareja, meu amigo, já passou do ponto.

    O mais curioso não é o fedor. É a tentativa coletiva de fingir que é perfume.
    — “Não é comigo.”
    — “Deve ser exagero.”
    — “Isso é intriga.”

    Até que alguém olha para o chão… e vê o rastro.

    Aí entra a mídia esperta. Não a valente porque valentia pressupõe risco mas a inteligente, que sabe quando o sistema começa a se livrar do peso morto para sobreviver. Malú Gaspar não gritou “fedor!” por coragem; gritou por olfato treinado. Jornalismo bom é isso: nariz fino em ambiente podre.

    E o espanto nacional foi exatamente zero quando se descobriu que os sapatos não eram de mendigos, nem de figurantes do poder. Nada de sandálias gastas ou solas furadas. Eram sapatos italianos, engraxados por assessores, pisando em tapetes caros e ainda assim, sujos de merda até o tornozelo.

    Banqueiros, magistrados, ministros.
    A nata.
    O andar de cima.
    O “raríssimo”.

    Aliás, esse “raro” virou coisa curiosa: não só preso, mas malcheiroso. Porque há crimes que algemam o corpo e outros que amarram a língua. E quando a língua trava, o cheiro fala.

    O governo tenta sair discretamente da barbearia, mas o problema é que o rastro continua. Cada passo deixa marca. Cada nota oficial espalha mais o cheiro. E quanto mais se caminha, mais evidente fica: não foi acidente, foi hábito. Quem pisa na merda uma vez pode até ser azar; quem pisa todo dia já escolheu o caminho.

    E no fim, como toda tragédia tupiniquim bem escrita, ninguém pede desculpa. Pedem contexto. Pedem calma. Pedem que o público “entenda a complexidade”. Mas merda não é complexa é orgânica, simples e universal. Todo mundo reconhece.

    O Brasil, cansado, já não tapa o nariz. Apenas observa, anota mentalmente o rastro e espera o momento inevitável em que alguém, constrangido demais para continuar, vai ter que parar…
    olhar para a sola do próprio sapato…
    e admitir:

    — “É… fui eu.”

    Até lá, meu amigo, seguimos nesse salão mal ventilado, fingindo que o problema é o desodorante quando, na verdade, o chão inteiro já está sujo.

    E merda à vista, como vocês bem sabem, tem dono. Sempre teve.

    Erre Eme

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  • O Heptacampeonato

    Ontem foi uma noite de festa, emoção e reconhecimento na sede da agremiação azulina. O clube abriu suas portas para reverenciar um feito heroico daqueles que o tempo não apaga e que, muito provavelmente, jamais se repetirá: os 70 anos do Heptacampeonato do basquetebol paraense.

    Foi uma noite de glória e de fortes emoções, em que tivemos o privilégio de abraçar verdadeiros baluartes do esporte paraense e dirigentes do mais alto nível, como o querido Ronaldo Passarinho, grande amigo e mestre.

    O evento foi magistralmente conduzido pelo extraordinário Edson Matoso, que demonstrou, mais uma vez, seu vasto e profundo conhecimento da história do esporte paraense, narrando fatos e personagens com precisão, respeito e paixão.

    Não poderia deixar de destacar o grande Haroldo Maués(Manolinho), que, juntamente com Sérgio Cabeça, conduziu tudo com imenso carinho e dedicação, sendo ambos responsáveis diretos por essa noite simplesmente memorável.

    Sinto-me particularmente honrado por um motivo muito especial: meu próprio pai, Rainero Maroja, presidia o clube em 1965, quando a agremiação conquistou o magistral Heptacampeonato. Um feito hercúleo, que ultrapassa gerações e permanece como símbolo máximo de excelência, união e amor ao esporte.

    Estão, portanto, de parabéns todos os atletas, dirigentes e colaboradores que tornaram possível esse feito inigualável um capítulo eterno da história do esporte paraense.

    Erre Eme

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  • O fim da medicina

    Artigo de um médico indignado, mas ainda em pé.

    Sou médico. E escrevo hoje não movido por vaidade, corporativismo ou nostalgia barata, mas por indignação ética.

    Poucos sabem ou poucos ainda se importam por que os médicos tradicionalmente se vestem de branco. Não é moda. Não é vaidade. O branco sempre representou limpeza moral, transparência, honra e respeito. Um compromisso visível de que aquele que o veste não deve carregar manchas nem nas mãos, nem na consciência.

    Houve um tempo em que a presença de um médico em uma residência era quase cerimonial. Não por soberba do profissional, mas pelo valor social atribuído ao saber médico. O médico era recebido com respeito porque trazia consigo algo raro: conhecimento a serviço da vida, prudência diante do sofrimento humano e responsabilidade sobre decisões irreversíveis.

    Lavava-se as mãos não apenas por higiene, mas como rito simbólico: separar o mundo profano do espaço do cuidado. A pequena toalha branca oferecida não era luxo era reconhecimento da dignidade daquele ofício.

    Esse tempo não acabou por falhas da Medicina.Acabou porque retiraram do médico o direito de exercer a Medicina.

    Vivemos hoje uma inversão perversa: o saber técnico passou a ser subordinado ao poder político-jurídico. A ciência passou a pedir licença. A ética passou a ser relativizada por decisões que ignoram décadas de formação, protocolos, evidências e responsabilidade profissional.

    O Conselho Federal de Medicina, instituição criada para zelar pela boa prática médica e pela segurança do paciente, foi tratado não como guardião da ética, mas como um entrave a ser neutralizado. Seu papel foi esvaziado. Sua autoridade, desconsiderada. Sua função, ridicularizada.

    O recado simbólico foi claro quase ofensivo:

    “Vocês são pequenos. Calem-se.”

    Quando o Supremo Tribunal Federal se coloca acima da ciência médica para decidir o que é ou não ato médico, não estamos mais falando de Justiça. Estamos falando de usurpação de competência.

    Juízes não diagnosticam.Tribunais não tratam pacientes.Canetas não substituem anos de estudo, residência, especialização e responsabilidade civil e moral.

    A pergunta que fica é amarga, mas inevitável:para que médicos, se tudo pode ser decidido por despacho?Para que conselhos profissionais, se o saber técnico não tem mais valor?Para que ética médica, se a ciência passou a ser opcional?

    A Medicina está sendo reduzida a um mero instrumento burocrático. O médico, transformado em executor mudo de decisões alheias. E o paciente, este sim, torna-se a maior vítima exposto a riscos travestidos de progresso e a arbitrariedades disfarçadas de humanismo.

    Não se trata de direita ou esquerda.Não se trata de conservadorismo ou progressismo.Trata-se de limite.

    Quando a Medicina perde sua autonomia técnica, toda a sociedade adoece.

    Se for assim, fechem-se os conselhos.Tranque-se as faculdades.Entreguem-se as chaves.E que o último a sair por ironia final apague a luz.

    Porque onde a ciência é silenciada,não há cura.Há apenas poder.

    Erre Eme

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