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Setenta e dois

Que número bonito para quem aprendeu que a vida não é medida pelos anos acumulados, mas pelas tempestades atravessadas.

Quando alguém te pergunta o que mudou, a resposta perfeita:

“Sou um sobrevivente.”

Não há qualquer traço de derrota nessa frase. Pelo contrário. Ela carrega uma dignidade que apenas o tempo concede.

Sobrevivente das alegrias e das tristezas.
Dos amigos que chegaram e dos amigos que partiram.
Dos sonhos realizados e dos sonhos abandonados pelo caminho.
Das madrugadas de trabalho.
Das preocupações com os filhos.
Dos pacientes.
Dos diagnósticos difíceis.
Das decepções inevitáveis que a vida distribui sem pedir licença.
E também dos momentos de felicidade que surgem sem aviso e tornam a caminhada suportável.

Pouca gente compreende o verdadeiro significado de envelhecer.

Envelhecer não é apenas acrescentar mais um número ao calendário.

É olhar para trás e perceber quantas versões de si mesmo já morreram para que a pessoa atual pudesse existir.

O jovem Rainero ficou para trás.
O médico recém-formado ficou para trás.
O pai de crianças pequenas ficou para trás.
Muitos amigos ficaram pelo caminho.

Mas algo permaneceu.

O homem.

Com mais rugas, talvez.
Com algumas cicatrizes a mais, certamente.
Mas ainda curioso, ainda inquieto, ainda escrevendo, ainda aprendendo palavras novas, ainda planejando livros, ainda sonhando.

Isso não é velhice.

Isso é permanência.

Isso é resistência.

Isso é sobrevivência.

Erre Eme

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