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A Hipocrisia

Antigamente era praticamente impossível convencer um jovem de que muitas das verdades que ele absorvia nos bancos universitários talvez não fossem verdades absolutas, mas apenas interpretações do mundo filtradas por uma determinada corrente ideológica.

Não se trata de opinião. Basta percorrer os um corredores de muitas universidades para perceber uma realidade desconfortável. Ambientes que deveriam exalar conhecimento, disciplina, cultura e respeito ao saber frequentemente exibem sinais de abandono, desleixo e hostilidade intelectual. E falo especialmente das universidades públicas, aquelas que muitos insistem em chamar de gratuitas.

Gratuitas?

Nada ali é gratuito.

Cada parede, cada sala de aula, cada lâmpada acesa e cada salário pago são custeados pelos impostos arrancados do trabalhador brasileiro. São mantidos pelo suor do padeiro, do motorista, do agricultor, do comerciante, do médico, do professor e do aposentado.

As universidades deveriam ser tratadas como catedrais do conhecimento, patrimônio sagrado de uma nação que deseja prosperar. Deveriam inspirar respeito, admiração e orgulho.

Mas o que vemos?

Pichações cobrindo fachadas, corredores mal conservados, lixo espalhado, cheiro de urina em locais comuns, preservativos entupindo canais pluviais e uma deterioração moral tão evidente quanto a física. Em alguns casos, vemos cenas que seriam inimagináveis há poucas décadas: alunos agredindo professores, autoridades acadêmicas sendo hostilizadas e a violência sendo tratada como instrumento legítimo de manifestação.

Não é rebeldia juvenil.

É degradação institucional.

Ontem assisti a uma cena que sintetiza perfeitamente essa decadência. Um presidente da República discursava aos gritos, expelindo ódio, insultos, palavrões e acusações. Não havia ali serenidade, liderança ou grandeza. Havia apenas raiva. Havia bile.

E o mais impressionante não era o espetáculo lamentável no palco.

Era a plateia.

Os mesmos de sempre.

Uma pequena curriola, felizmente minoritária, aplaudindo freneticamente, repetindo palavras de ordem e celebrando cada agressão verbal como se estivessem diante de uma manifestação de sabedoria. Pareciam não ouvir os excessos, não perceber as contradições e não enxergar os fatos.

Aplaudiam porque queriam acreditar.

E quem deseja acreditar deixa de pensar.

O que mais me incomoda, entretanto, não é o político que grita.

Políticos passam.

O que me preocupa é quando tento dialogar com jovens e percebo o quanto certas ideias foram absorvidas sem questionamento. Não como conhecimento, mas como dogma. Não como reflexão, mas como fé.

Nesse momento compreendo o poder da contaminação ideológica.

Ela não ensina a pensar.

Ensina o que pensar.

E então surge um sentimento estranho. Às vezes sinto vontade de silenciar certos fatos apenas para evitar discussões inúteis. Às vezes surge a tentação de omitir verdades para preservar amizades ou evitar conflitos.

É triste admitir isso.

É quase uma forma de hipocrisia.

Mas talvez seja apenas o cansaço de quem percebe que alguns não procuram argumentos; procuram confirmação.

O verdadeiro conhecimento nasce da dúvida.

A verdadeira universidade deveria ensinar a discordar sem odiar, a debater sem destruir e a buscar a verdade mesmo quando ela contraria nossas convicções.

Quando uma instituição deixa de formar pensadores para formar torcidas organizadas, ela abandona sua missão.

E quando uma sociedade passa a aplaudir o grito em vez do argumento, o fanatismo em vez da razão e a militância em vez do conhecimento, ela não está construindo o futuro.

Está apenas decorando as paredes de um edifício que lentamente desaba.

E a hipocrisia maior talvez seja justamente esta:

Dizer que estamos formando mentes livres enquanto ensinamos exatamente o que elas devem pensar.


Erre Eme

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